"Elas ficam a enganar as pessoas, é um negócio, isto
está mais do que óbvio, ficam a vender milagres." (1)
Com essas palavras, Rui Falcão, secretário do birô político
do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) justificou a proibição de
igrejas evangélicas atuarem em Angola. Parece que os governantes angolanos,
como profetas rodriguianos, perceberam o óbvio ululante, isto é, que o
movimento evangélico moderno tornou-se um negócio muito, muito lucrativo, e que
se sustenta do escasso dinheiro dos pobres.
Mas fica uma pergunta, se a intenção financeira é tão patente aos olhos,
por que tanta gente ainda é supostamente iludida?
Você já se espantou com um casal formado por um homem muito
velho e uma mulher muito jovem? Por mais que nossa sociedade seja
“politicamente correta”, um casal desses sempre chamará a atenção. Isso, no
entanto, não impede que haja ao redor do mundo milhares de homens velhos, ricos
ou não, que continuam dispostos a “sustentar” esposas muito mais jovens do que
eles, mesmo sabendo que por parte delas geralmente não exista outro amor que
não pelo dinheiro deles. Espantoso? Não deveria ser! Nosso espanto ocorre por
que, como o governo angolano, somos muito românticos quanto a capacidade do ser
humano em se adaptar as situações. Se ela quer dinheiro tudo bem, diria o
velho, isso eu tenho de sobra. Ele quer “amor”? Responderia ela - Ok! Dinheiro compra
até amor verdadeiro. É esse o tipo de realidade, do tipo nua e crua, que parece
faltar no contexto dos lideres angolanos, e que faz com eles ingenuamente tutelem
seus compatriotas, protegendo-os das “malignas” igrejas evangélicas.
Primeiro que eu não acredito que, em relacionamentos como o
do casal, assim como o de evangélicos e as igrejas a que pertencem, haja alguém
realmente enganado. Tanto quem “engana” quanto o que é “enganado”, na verdade,
estão, conscientemente, se sujeitando a uma espécie de contrato social, onde o
interesse das partes, se satisfeitos, mantém o equilíbrio e a aceitação plena
desse contrato. De maneira mais objetiva, usando o caso do casal, se a jovem
esposa, em troca do beneficio social, satisfaz as expectativas do velho rico,
seja com sexo ou status, o equilíbrio consciente do contrato está estabelecido.
Isso parece duro e até vulgar, mas, não se engane, esse principio é o
fundamento básico da nossa atual sociedade, particularmente as democráticas. O
que Inclui o movimento evangélico.
Não que pessoas de intelecto mais simplório não possam ser
iludidas por algum tempo, mas é só por algum tempo. O que quero dizer é que o
governo angolano percebeu apenas parte do óbvio. A outra parte, que eles não se
deram conta, é que, assim como o velho rico é beneficiado com a juventude da
sua esposa, os angolanos convertidos certamente também acharam beneficio no
movimento que aderiram. O negócio, como chamou o Sr. Falcão, não traz vantagem
só para as igrejas, até por que, por mais humilde e necessitado que possa ser
um povo, ninguém em sã consciência rasgará dinheiro.
Além disso, considerando toda a complexidade da realidade
sócio econômica de um país como Angola, fico sinceramente em dúvida, se tirar do
povo a possibilidade de uma integração comunitária, como o encontrado em uma
igreja, seria de fato um benefício. Digo isso porque, apesar de determinados
abusos que possam ocorrer, inclusive charlatanismo, as igrejas, por outro lado,
costumam também atender outras necessidades que são mais táteis as realidades
encontradas nesses países, como, por exemplo, itens de vestuário, alimentação e
medicamento, e que junto trazem ainda coisas intangíveis (nem por isso menos
importantes), como dignidade e educação. Não tiro do governo angolano o bom
siso e intenção da ação contra o movimento evangélico, mas por outro lado,
creio que o ser ou não “enganado”, deveria ser considerado sempre como algo pertencente
ao foro íntimo do individuo.
Na minha visão política, o bom governo é aquele que interveem
o menos possível na vida particular dos cidadãos, e mais na pública, ou seja, ele
só deveria intervir, por exemplo, em questões como infraestrutura e transporte
público, que são temas próprios da coletividade. Quando um governo começa a
tutelar demais a vida privada dos cidadãos isso é sinal de que a população
ainda não aprendeu a caminhar com as próprias pernas. A maioria dos projetos sociais,
que deveriam ser apenas uma espécie de auxílio
inicial, visando a reconstrução das vidas, se tornam a normalidade para a
maioria do povo. Darei um exemplo concreto. Observem o projeto brasileiro da
Bolsa Família. Esse projeto é anualmente comemorado pela sua expansão. Nada mais
absurdo! O correto seria comemorar a diminuição do seu uso, pois, quando menos precisamos
recorrer às bolsas, é sinal que, em tese, mais cidadãos conseguiram reconstruir
suas vidas. Entendem? Mas, isso é algo que democracias, como a brasileira e a
angolana, parecem que ainda não aprenderam. Até lá teremos que conviver com
gente de todo tipo se aproveitando da fragilidade, que não significa
passividade, dessa gente acostumada a ser sustentada pelas mãos alheias.
William de Oliveira
(1) Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/04/1269733-angola-proibe-operacao-de-igrejas-evangelicas-do-brasil.shtml
Só discordo no quesito intervenção estatal. Não há como deixar de intervir num país onde não há educação. Falando economicamente, dessa forma também não deveria haver intervenção estatal em casos de crises econômicas.
ResponderExcluirOlá merovíngio, como eu disse acime, acredito que a intervenção estatal "ruim" é a feita na vida privada, educação na minha opinião é uma intervenção na esfera pública (infraestrutura), que se fosse bem feita, como é em países desenvolvidos, evitaria o primeiro tipo de intervenção. Quanto a questão da economia, o assunto é bem mais complexo em virtude de um modelo econômico extremamente dependente do cenário global. Mas você pode observar que, sempre que um governo interveem nos juros ou na taxa de cambio, por exemplo, isso é visto com cautela. Isso por que a intervenção estatal, mesmo na economia, não deveria ser a normalidade. Abraço.
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ResponderExcluirContinuo achando a intervenção estatal na vida vida privada, em muitos casos, necessária. Visto que, vivemos em um sistema sócio-econômico que manipula a vida privada de acordo com a necessidade do mercado (vide as políticas em relação aos bancos que são totalmente frouxas e generosas) e o desejo dos "coronéis" espalhado pelo Brasil a fora.
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